Viagem Py/Ar/Bo/Pe

Viagem de moto pelo Altiplano Andino, desde Jujuy até Machu Picchu, passando por 5 países da América do Sul: Brasil, Paraguai, Argentina, Bolívia e Peru.

Roteiro (10.752,9kms):


Mapa:


Blog:

Dia 25: Três Lagoas - Rio de Janeiro

postado em 17 de dez de 2013 08:30 por Road Garage   [ 19 de dez de 2013 07:09 atualizado‎(s)‎ ]

O estresse da noite anterior e o cansaço acumulado me permitiram dormir igual uma pedra. Acordei com o despertador para não perder o café da manhã. Café tomado, voltei para o quarto e aquele cheiro de gato morto. "Que diabos de cheiro é esse?" Minha roupa estava toda molhada, não tinha secado ainda...

Coloquei ela molhada mesmo, pois queria passar por São Paulo e chegar em casa. É aquela máxima: "O que a chuva molha o vento seca."

(SP 300 - São Paulo - Brasil)

Muitas retas de pista dupla com ótimo asfalto, o que possibilita uma velocidade de cruzeiro maior:

(SP 300 - São Paulo Brasil)

Em uma das paradas, percebi que a eficiência do freio traseiro estava abaixo do normal. No último dia de viagem, para não dizer que não deu alguma merda, tá ai a pinça do freio traseiro solta. Um dos parafusos resolveu ficar pelo caminho:

(Parafuso da pinça do freio traseiro perdido - São Paulo - Brasil)

Sem problemas, o freio traseiro é utilizado em baixas velocidades, e como estou na estrada, não preciso tanto dele. Continuei tocando, paradas apenas para abastecimento + água + banheiro, e com céu azul, chego na divisa São Paulo - Rio de Janeiro:

(BR 116 - Divisa São Paulo | Rio de Janeiro - Brasil

Serra das Araras e mais alguns kms até chegar na garagem, com toda a tranquilidade. Uma viagem é boa quando o odômetro parcial zera e recomeça a contagem:



Foram 10752,9 kms bem rodados. Voo solo por 5 países, passando por lugares fantásticos. Missão cumprida!

Qual será a próxima viagem? 

Ouvi alguém falando Ushuaia?


Dia 24: Várzea Grande - Três Lagoas

postado em 16 de dez de 2013 02:19 por Road Garage   [ 19 de dez de 2013 07:09 atualizado‎(s)‎ ]

Hoje o dia começou bem, com um engarrafamento quilométrico de carretas:

(BR 163 - Mato Grosso - Brasil)

Como não tinha tráfego na mão contrária, fui eu fazer uma ultrapassagem combo. Até chegar no acidente, uma carreta de lado com a carga virada, obstruindo as duas pistas, não passava ninguém, a não ser moto. Bem cedo já estava na divisa com Mato Grosso do Sul:

(BR 163 - Divisa Mato Grosso | Mato Grosso do Sul - Brasil)

Estrada tranquila até Campo Grande, onde nuvens com chuva se aproximavam. Fui procurar minha capa de chuva e...:

(BR262 - Mato Grosso do Sul - Brasil)

Caiu na estrada. Se alguém achar uma capa de chuva na BR163 no Mato Grosso, é minha! Também aceitamos doações... Mas por enquanto, que beleza, daqui até o Rio de Janeiro sem capa de chuva. E tome spray:

(BR262 - Mato Grosso do Sul - Brasil)

A chuva cedeu, parei a beira da plantação de eucaliptos para tirar a água do joelho. O eucalipto tinha sido cortado recentemente, e como estava molhado, um cheiro bom por todo o lugar. 

Estrada mais cheirosa que essa impossível:

(BR262 - Mato Grosso do Sul - Brasil)

E aquela chuva no horizonte que estava prometendo, começou a cair. Tive que diminuir a velocidade e a noite era certa. Não gosto de viajar a noite, mas como já conhecia aquela estrada, resolvi arriscar. Não deu outra, caí na exponencial noturna. 

Exponencial noturna, quanto mais você roda, mais você tem que rodar. Explico: a noite está aproximando e vc a 120km de uma cidade, rodando a 120km/h. Quando estiver a 100km, a visibilidade diminuiu e você terá que rodar a 100km/h, faltando ainda 1hora para chegar. Quando estiver a 80km, a noite já caiu e você já não enxerga muita coisa, e sua velocidade será de 80km/h, faltando ainda 1 hora para chegar na cidade. Começou a chover? A estrada ficou ruim? Você está cansado? Faltam 70km e sua velocidade é de 70km/h, e assim sucessivamente. Essa 1 hora se perpetua pela noite a dentro, e você se sente preso nas trevas.

Esse era o meu caso, a chuva começou a cair forte, carretas vinham na mão contrária causando um spray, que iluminado pelo farol alto virava uma cortina branca, limitando minha visão. Muita água e... Frio, me parabenizando por perder a capa naquele dia. De repente algo brilhante vem pulando do acostamento para o meio da pista. Era um sapo todo molhado, refletindo a iluminação do meu farol. 1 salto, 2 saltos, 3 saltos... e a aterrizagem do quarto salto foi debaixo da minha roda dianteira, não tinha como desviar, o asfalto estava muito escorregadio. A moto deu aquela rebolada. Imagine cair por esse motivo... Mas... Descanse em paz pequeno sapo.

Cara, sapo na pista, que chuva é essa!?

Algo aconteceu depois que eu atropelei o sapo. Os Deuses protetores dos anfíbios se revoltaram no céu. Raios violentos começaram a cair, era estouro pra tudo quanto era lado, e o clarão no céu! Um desses raios iluminou o horizonte e eu percebi que estava próximo de linhas de transmissão de alta tensão! Elas passam ao lado da estrada. Claro, porque não, vou filmar a minha morte. Me aproximando de uma dessas torres de energia, passa um raio na minha frente. Tá pensando que é brincadeira?

(BR262 - Mato Grosso do Sul - Brasil)

Após o raio, a escuridão voltou a tomar conta, e meu farol alto iluminava pouco. Sabia que estava me aproximando daquele ponto, mas não sabia quando.

Reduzi um pouco a velocidade, e me acalmei lembrando que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Será? De repente, um porradão do meu lado esquerdo, o céu e a pista ficaram iluminados!

(BR262 - Mato Grosso do Sul - Brasil)

MERMÃÃÃÃO!! O raio caiu ali bem próximo! Se eu tivesse com vontade de ir ao banheiro teria largado ali mesmo... Pense num frio na barriga! Apenas Deus para aquela merda não cair nas torres do lado direito...

Fui no sapatinho até chegar em Três Lagoas, que fez jus ao nome, e realmente mais parecia uma lagoa. Cheia de poças dágua, tudo alagado. Dei sorte de achar um hotel barato e de cara pro gol.

É por essa e outras que não se anda a noite, principalmente quando está chovendo. Mas... 

Estou vivo... E agora sim: 

Maldito sapo, vá pro inferno.

Dia 23: Vilhena - Várzea Grande

postado em 13 de dez de 2013 08:39 por Road Garage   [ 19 de dez de 2013 07:09 atualizado‎(s)‎ ]

Pensei que sairia cedo do hotel, mas a moto faz um sucesso danado. Todos querem saber a cilindrada e para onde estou indo. Paro para tomar café da manhã e são minutos explicando o que estou fazendo ali. Alguns mais interessados percebem que a transmissão secundária não é corrente, e sim correia. Pronto, mais alguns minutos explicando. Hoje pela manhã o cara queria saber o que eu faria se a correia arrebentasse. Respondi de bate e pronto: "fica tranquilo amigo, ela não vai arrebentar."

Não adianta, você viaja com a bagagem e seus medos. Me desculpe, estou de moto, não posso carregar muita coisa comigo, preferi trazer só a bagagem. Ah se ele soubesse que eu mesmo instalei os rolamentos, rodas e afins. Talvez ficasse perplexo. Mas o fato é que eu revisei a correia dente por dente, e eu mesmo acertei a tensão. Não deixei recado para nenhum mecânico. Isso faz com que meus medos fiquem na garagem, e eu possa curtir uma viagem dessa sem preocupações. Fatalidades acontecem, ok, faz parte da vida. Então vamos viver.

Primeiro checkpoint do dia:

(BR 174 - Divisa Rondônia | Mato Grosso - Brasil)

O cenário muda no estado do Mato Grosso. Enormes plantações de soja por todos os lados:

(BR 174 - Mato Grosso - Brasil)

Lembra bastante o norte do estado do Paraná. Nesse percurso a moto alcançou a Km recomendada para troca do óleo. Na primeira cidade grande, parti em busca de uma oficina:

(BR 174 - Cáceres - Mato Grosso - Brasil)

Advinha onde fui parar? Me lembrei que na viagem ao Chile (Ver Viagem Ar-Ch) o Gilson e sua Boulevard 800 foram motivo de piada ao fazer a troca de óleo numa mecânica Harley em Santiago, com óleo original Harley Davidson. Agora é a minha vez de colocar óleo da Suzuki:

(Cáceres - Mato Grosso - Brasil)

Óleo 20w50, que atende a Suzuki 1500cc, então sem problemas. Lá fui eu para o chão retirar o dreno do óleo (claro, eu levei as ferramentas em polegada). A loja da frente era de material de construção, enquanto o óleo velho escorria, fui lá comprar uma cola para retornar os punhos, que foram devidamente "cimentados" no guidão. Agora foi a vez de trocar a lâmpada do pisca traseiro, que queimou nas últimas chuvas:

(Cáceres - Mato Grosso - Brasil)

Pronto, moto nova! Pensei que seria difícil arrumar essa lâmpada de dois polos, mas na Suzuki tem. Bom saber. Uma voltinha rápida até o rio Paraguai para circular o óleo:

(Cáceres - Mato Grosso - Brasil)

Rio bem extenso, cruzei ele lá em Assunción, em direção a Argentina. Agora aqui no Mato Grosso. 

Com todas essas tarefas realizadas, me restou apenas apreciar o pôr-do-sol na estrada:

(BR 070  - Mato Grosso - Brasil)

Tiro curto até Cuiabá, onde cheguei a noite. Uma rotatória com várias saídas, e placas muito confusas, acabei ficando em Várzea Grande, cidade conurbação com Cuiabá. Churrasco do gado local e cama, tá valendo.


Dia 22: Jaci Paraná - Vilhena

postado em 13 de dez de 2013 04:02 por Road Garage   [ 19 de dez de 2013 07:08 atualizado‎(s)‎ ]

Regra número 1: assim que chegar na cidade de destino, abasteça para o dia seguinte.
Regra número 2: se a regra 1 não for satisfeita, abasteça sempre antes de pegar a estrada.

As longas horas em cima da moto me deixaram relapso com minhas regras. Como dormi em um hotel na beira da estrada, comecei meu dia na rodovia. A luz da reserva acendeu, normal, só ando assim. A diferença agora é que estou na região norte, e posto de gasolina por aqui não é tão frequente. Você está naquele retão mão-dupla, não vê nenhuma moto indo ou vindo, somente as carretas. Placa com distância das cidades não se vê a um bom tempo. Claro, não vai ter posto aqui no meio desse mato. A pilotagem muda e você começa a acelerar como se só houvesse vapor de gasolina dentro do tanque. Mas como sou um cara de muita sorte, tive princípio de pane seca a alguns metros do posto de gasolina. (não foi a primeira e espero também não ser a última se estiver na frente do posto rs). A moto morreu seca. Inclinei a moto para a esquerda, liguei com as últimas gotas e entrei no posto. Taí uma coisa que sempre quis saber ao certo:

(Pane seca - Acre - Brasil)

Cabem 19,15 litros de gasolina no tanque da Softail! Antes eu rodava contando com 17 litros, agora ganhei mais 2. Algo me diz que era melhor não saber disso.

Aqui em Rondônia a paisagem começa a mudar, as muitas árvores dão lugar a hidrelétricas e linhas de alta voltagem. O que sobrou da selva parece não resistir:

(BR 364 - Rondônia - Brasil)

E a pecuária tomando o seu espaço:

(BR 364 - Rondônia - Brasil)

Vim me esquivando das diversas carretas que realizam ultrapassagem sem respeitar o motociclista na mão contrária. São uns retardados pois aqui não tem acostamento! Bom, eu também fazia minhas ultrapassagens. A diferença é que estou de moto, e ganho velocidade muito mais rapidamente para uma ultrapassagem segura:

(BR 364 - Rondônia - Brasil)

Enrolei o cabo até chegar em Cacoal, capital do café, onde tive uma surpresa:

(Cacoal - Rondônia - Brasil)

Sim meus punhos saíram nas minhas mãos. Que merda! Acho que enrolei o cabo demais ou a grande variação de temperatura dos dias anteriores. Ou o calor infernal que estava fazendo, descolou e só sobrou o cano suporte dos cabos de acelerador e retorno. Fazer o que, o jeito é continuar assim mesmo.

Atravessei o que faltava do estado de Rondônia sem os punhos, acelerando no cotoco de plástico. Pelo menos o por-do-sol foi magnífico, e muitas araras sobrevoavam a rodovia:

(BR 364 - Rondônia - Brasil)

Dentre elas um casal de Arara Azul. Já tinha visto algumas em Bonito - MS, mas foi a primeira vez assim sobrevoando uma estrada. A natureza ainda resiste.

Parada em Vilhena, quase divisa com Mato Grosso. Se continuar atravessando um estado por dia consigo realizar o planejado.

Dia 21: Iberia - Jaci Paraná

postado em 12 de dez de 2013 11:09 por Road Garage   [ 19 de dez de 2013 07:07 atualizado‎(s)‎ ]

"Patrício! ... Patrício!" Pronto, acordei. Que diabos esse senhor me chama de Patrício, se já sabe o meu nome. Saí da barraca, já era dia, e pude ver onde eu estava:

(Iberia - Madre de Dios - Peru)

Aqui é assim, se tem porteira não tem cerca. Se tem cerca, não tem porteira. Aliás me "hospedei" no quintal mais chique da região: 3 metros de cerca, porteira com uma mão de tinta, e um telhadinho para proteger da chuva. Ah! Claro, alguém gentilmente vem lhe acordar para não perder o horário. O senhor de nome impronunciável me acordou as 7h, horário que combinamos no dia anterior. Tão cedo assim, não estava com fome, e como tinha comprado um panetone para o café da manhã, achei justo dá-lo ao homem, em forma de agradecimento, desejei que Deus o abençoasse nesse ano que está por vir. Ficou todo feliz.

Barraca desfeita, bagagem arrumada, percorri 60km até a fronteira, em Iñapari. Depois dos trâmites, tirei minha última foto nesse país que me recebeu muito bem:

(Iñapari - Madre de Dios - Peru)

E de agora em diante, Brasil! Sim, o Acre existe:

(Fronteira Madre de Dios - Peru | Acre - Brasil)

Acre! Agora caiu a ficha. Estou longe pra cacete de casa! Vou enrolar o cabo... Ou não:

(BR 317 - Acre - Brasil)

Bem vindo ao Brasil. Sorte que era pontual, a estrada melhora gradativamente. Primeiro um retão mão-dupla sem acostamento:


(BR 317 - Acre - Brasil)

Depois um retão mão dupla com duas faixas de rolamento e acostamento! Luxo demais!

(BR 317 - Acre - Brasil)

A estrada continua boa, atravessando do Acre até Rondônia:

(BR 364 - Divisa Acre | Rondônia - Brasil)

Se você pensar que está passando bem próximo da selva Amazônica, não é tão ruim assim. Aliás, em falar em selva, meu braço começou a ficar dormente lá pelo interior do Acre. Pensei que fosse por conta do guidão alto. Até sentir alguns "choques" anormais e desconfiar que tivesse um bicho passeando pelo meu antebraço. Não deu outra, nossa amiga vespa conseguiu entrar pela manga da jaqueta e me presentear com 11 ferroadas, apenas:

(BR 364 - Acrê - Brasil)

Dizem que na Amazônia se encontra cura para tudo, quem sabe não me dou bem com essas ferroadas. Porque até agora o braço está inchado. Pilotar em condições adversas, a gente vê por aqui.

Chegamos (eu, minha moto Juanita e a vespa) na balsa que atravessa o Rio Madeira, aqui no cantão do Brasil:

(BR 364 - Balsa do Rio Madeira - Rondônia - Brasil)

Pelo que andei conversando, entra licitação e sai licitação, e não constroem a ponte. Porque será? Ninguém imagina... (filho de político dono das barcas) Se você voltar na postagem anterior, você verá uma ponte que atravessei em Puerto Maldonado, grande e toda no metal, magnífica. Passa em cima do rio Madre de Dios, que é a versão Peruana do rio Madeira. Uma vergonha esse Brasil!

Aqui estamos no cantão mesmo, no meio do rio a fronteira é com a Bolívia:

(Rio Madeira - Rondônia - Brasil)

Continuei na estrada até o sol se por:

(BR 364 - Rondônia - Brasil)

Primeira cidade: Jaci Paraná. Primeiro hotel na beira da estrada, e aqui vou passar a noite.

Dia 20: Cuzco - Iberia

postado em 12 de dez de 2013 02:43 por Road Garage   [ 19 de dez de 2013 07:06 atualizado‎(s)‎ ]

Saí de Cuzco naquela indecisão: "Por onde eu volto?" Sinceramente já tinha rodado muito pela Bolívia, e boa parte do caminho seria parecido. Agora estava perto do Acre, e poderia voltar logo para o Brasil e fazer todo o percurso em solo pátria mãe. A decisão foi feita quando ví essa placa:

(3S - Cusco - Peru)

Juliaca denovo não! Oh cidade do capeta, me fez escolher um caminho 1000km mais distante, mas pelo menos uma carretera nova. Essa estrada Interoceânica, também conhecida como estrada do Pacífico, foi inaugurada recentemente, e prometia boas condições do asfalto:

(30C - Cusco - Peru)

Tenho 6 dias para fazer um pouco mais de 5kkm, vamos ver se consigo. Comecei a subir a cordilheira dos Andes Peruana, estava a quase 3000m de altitude e fui até 4725m! Pelo menos era o que dizia essa placa congelada:

(Estrada do Pacífico - Carretera Interoceânica - PE30C - Cordilheira dos Andes - Abra Pirhuayani - Cusco - Peru)

Estava chovendo e um frio descomunal, se via gelo no acostamento e na área envolta. A placa com gelo, e o topo das montanhas nem preciso dizer. Devia estar próximo de zero grau, pois a luva de couro e a luva segunda pele não deram conta. Meus dedos estavam congelados e apelei pro motor do Harlão:

(30c - Cusco - Peru)

Mãos descongeladas, comecei a descer a cordilheira, um visual perfeito de curvas serpenteando entre as grandes montanhas cobertas de vegetação. Os Andes Peruano nem se compara com os outros visitados, como Chile, Argentina e Bolívia. O cenário é bem diferente:

(Estrada interoceânica - Cusco - Peru)

Quando  as montanhas diminuiram, já estava na região de Madre de Dios, floresta Amazônica Peruana. Vegetação para todos os lados, sol e chuva:

(Interoceanica sur - Madre de Dios - Peru)

Foi um chove-e-para a tarde inteira. Via-se claramente onde começava e terminava a chuva, assim como as nuvens:

(Estrada do Pacífico - Madre de Dios - Peru)

Até chegar em Puerto Maldonado, onde o tempo melhorou, e fez um calor absurdo. Deveria estar beirando os 40 graus. Provavelmente a maior variação térmica que enfrentei na estrada. Chegando em Puerto Maldonado, percebe-se o grande movimento de motos, de todos os tipos e cilindradas:

(Puerto Maldonado - Madre de Dios - Peru)

Me recomendaram muito cuidado nesse canto, pois muitas dessas motos nem tem documentação, ninguém sabe a origem (se é que me entendem). Paradas rápidas para abastecer, enrolei o cabo até o dia terminar. Quando a noite estava caindo, percebi que não chegaria na fronteira em Iñapari a tempo de fazer os trâmites. Essa cidade não tem nada, além de casas de câmbio e trâmites da aduana peruana. O jeito foi apelar para uma das diversas casas de beira da estrada:

(Rodovia interoceânica - Madre de Dios - Peru)

Quando cheguei em Iberia, entrei no quintal de uma delas. Logo veio o dono com uma lanterna. Conversei com ele, perguntei se poderia armar a barraca ali no seu quintal, que no dia seguinte bem cedo faria os trâmites na fronteira. O senhor foi bem solícito, comentou que não é a primeira vez que alguém acampa no seu quintal, que muitos gringos passam por aqui indo para a Amazônia e pedem esse favor. Mas que era a primeira vez que um Brasileiro ficava ali. O senhor peruano, com toda educação do mundo, me permitiu passar a noite no seu quintal:

(Iberia - Madre de Dios - Peru)

Foi uma das melhores noite de sono da viagem. Cansado, chuva caindo lá fora, som das corujas e outros animais da floresta amazônica, um clima agradável. Dormi muito bem.

Dia 19: Aguas Calientes - Machu Picchu - Cuzco

postado em 11 de dez de 2013 04:38 por Road Garage   [ 19 de dez de 2013 07:06 atualizado‎(s)‎ ]

As 6h20m da manhã já estava pegando um dos primeiros ônibus com destino a cidade sagrada de Machu Picchu, chegando 20 minutos depois. Como estava muito cedo, a neblina tomava conta do lugar, postergando a surpresa para mais tarde:

(Machu Picchu - Cusco - Peru)

Porque chegar tão cedo? Primeiro, não tem turistas, a cidade fica vazia para todos os montanhistas, ou melhor, montanhistas e lhamas:

(Machu Picchu - Cusco - Peru)

E o controle para subir a WayanaPicchu, aquela montanha que você vê ao fundo de todas as fotos de MachuPicchu abre as 7h. Estava lotado com a galera que realmente gosta de montanhas. Todos aguardando anciosamente o momento de subir aquele paredão e ver a cidade sagrada ao contrário de todas as fotos que você vê por ai. Sim, a maioria dos turistas não vai lá. Claro, nos fomos:

(Waynapicchu - Machu Picchu - Cusco - Peru)

É uma trilha puxada, sobe-se muito em pouco tempo, falta ar, te obrigando a parar varias vezes para beber água e tomar fôlego:

(Huaynapicchu - Machu Picchu - Cusco - Peru)

E depois de 1hora, você tem a sua recompensa. A neblina já foi embora e é simplesmente sensacional ver a cidade dessa perspectiva:

(Huaynapicchu - Machu Picchu - Cusco - Peru)

Estrada para Machu Picchu a esquerda, Machu Picchu acima e abaixo o mochileiro motociclista cumprindo a sua missão! Foram Kms bem rodados para chegar até aqui e subir essa montanha. E já que estamos aqui, porque não subir a montanha menor? Desci até ela, e como está mais perto da cidade, a foto fica bem legal:

(Huchuy Picchu - Machu Picchu - Cusco - Peru)

Aqui tem todo o visual dos arredores de Machu Picchu, todas essas montanhas que provavelmente eram extremamente cultuadas pelos Incas. Onde a natureza mostra todas as suas faces:


(Huchuy Picchu - Machu Picchu - Cusco - Peru)

E como também não poderia deixar de ser, a foto tradicional, aquela que vemos em todos os lugares, com a montanha Huayanapicchu de fundo:

(Machu Picchu - Cusco - Peru)

E agora sim, depois do montanhismo, já chegavam os turistas e o momento de fazer o tour guiado pela cidade:

(Machu Picchu - Cusco - Peru)

Tudo na pedra, até as escadas:

(Machu Picchu - Cusco - Peru)

Janelas ou o que deveria ser isso:

(Machu Picchu - Cusco - Peru)

Dobradiça de portas:

(Machu Picchu - Cusco - Peru)

Dá-lhe engenharia! Sente o sistema hidráulico dos Incas:

(Machu Picchu - Cusco - Peru)

Aquele momento que vc percebe que os engenheiros Incas eram bem melhores que muitos engenheiros de hoje em dia. E que talvez a humanidade esteja involuindo:

(Machu Picchu - Cusco - Peru)

O guia era muito bom e nos bombardeou de mitos, lendas e histórias Incas e de Machu Picchu. Você sabe porque a cidade era sagrada? A revelação final: a cidade de Machu Picchu era considerada sagrada para os Incas pois aqui era um lugar de aprendizado, de passagem de conhecimento. Sim, Machu Picchu era uma universidade! Era uma cidade universitária Inca. Espetacular saber que os caras conheciam os pontos cardeais, as estações do ano, dominavam astronomia, engenharia civil, engenharia hidráulica, e transmitiam todo esse conhecimento aqui nessa cidade. Além disso, um lugar especial, ao redor de tanta natureza e montanhas. Valeu a visita.

Desci novamente até Aguas Calientes:

(Aguas Calientes - Cusco - Peru)

Peguei o trêm e depois uma van refazendo todo o caminho do dia anterior até Cuzco, onde chegamos tarde da noite. Mas em tempo para ver a última pedra do dia, entre todas as mais famosas da cidade, a pedra de 12 faces:

(Cuzco - Cusco - Peru)

Sente o tamanho da pedra. Mais 3 metros de profundidade. Voltei para o hostel impressionado com os Incas, e pensando em como os Espanhóis conseguiram destruir muita coisa por aqui. 

Enfim, missão cumprida, agora é dormir e preparar o retorno pra casa.


Dia 18: Cuzco - Aguas Calientes

postado em 11 de dez de 2013 04:01 por Road Garage   [ 19 de dez de 2013 07:05 atualizado‎(s)‎ ]

Contratei um passeio de dois dias. O primeiro pelo Vale Sagrado até Aguas Calientes, última cidade antes de Machu Picchu e que só se chega de trem. Não tem estrada para lá a não ser o Caminho Inca, que começa no km 82 do vale sagrado e leva de 3 a 5 dias para percorrer a pé. Como não tenho tempo para isso (e nessa altura do campeonato nem disposição para tal) prefiro o jeito coxa: ônibus + trêm + ônibus.

Dessa vez o hostel fica a um quarteirão da praça de armas de Cuzco, de onde saiu o ônibus bem cedo para conhecermos algumas das cidades do Vale Sagrado:

(Plaza de Armas - Cuzco - Cusco - Peru)

Primeira parada no mirante do Cristo, o tamanho do umbigo do mundo impressiona, cidade de Cuzco é bem grande:

(Mirante do Cristo - Cuzco - Cusco - Peru)

Colado no Cristo Branco, temos a antiga fortaleza de Sacsayhuaman, infelizmente não sobrou muita coisa pois com a chegada dos espanhóis, destruiram 80% dos muros aproveitando as pedras em construções de igrejas católicas em Cuzco:

(Sacsayhuaman - Cuzco - Cusco - Peru)

Nesse meio tempo o guia estava explicando alguns aspectos da cultura Inca, e o que acontecia naquele lugar. Começou uma "porradaria" quando ele disse algo sobre os sacrifícios, se fazia ou não fazia. Percebi que cada um tem a sua opinião e a do guia é apenas mais uma. Continuamos até Pisac:

(Pisac - Vale Sagrado - Cusco - Peru)

Pela quantidade de terraços de cultivo, pode-se perceber que a cidade era grande. Os caras tinham técnicas de cultivos de milhares de tipos de milho e batatas andinas. Além disso, saca o cemitério:

(Pisac - Vale Sagrado - Cusco - Peru)

As pessoas eram enterradas nas montanhas, em posição semi fetal. Do jeito que vieram a vida, retornavam a terra, em sinal de reverência a Pachamama. Seguimos até Ollantaytambo, quartel general Inca:

(Ollantaytambo - Vale Sagrado - Cusco - Peru)

Impressiona  a quantidade de pedras usadas para construir esse forte, e o detalhe no encaixe de cada uma. Simplesmente incrível como os caras faziam isso a mais de 500 anos atrás:

(Ollantaytambo - Vale Sagrado - Cusco - Peru)

O guia deu uma aula sobre o lugar, e porque era tão estratégico para os Incas a localização do forte. As pedras foram roladas através de Kms de distância até esse lugar. Não foi trabalho simples não, olha essa pedra e os detalhes:

(Ollantaytambo - Vale Sagrado - Cusco - Peru)

Como eles faziam é difícil dizer ao certo, mas as pedras são muito bem trabalhadas. Levamos o dia todo nesses lugares, até pegar o trem IncaTrail na cidade de Ollantaytambo:


(Ollantaytambo - Vale Sagrado - Cusco - Peru)

Esse trem continua por cenários incríveis, até a cidade destino Aguas Calientes, onde iremos dormir e acordar cedo para subir a Machu Picchu:

(IncaTrail - Ollantaytambo | Aguas Calientes - Cusco - Peru)

A turistada se amarra:

(IncaTrail - Ollantaytambo | Aguas Calientes - Cusco - Peru)

Ao chegar em Aguas Calientes, separei o ticket do ônibus que sobe a Machu Picchu, o ingresso do parque MachuPicchu e o ingresso da montanha HayanaPicchu, pois amanhã bem cedo é dia de montanhismo!

Dia 17: Puno - Cusco

postado em 10 de dez de 2013 10:16 por Road Garage   [ 19 de dez de 2013 07:03 atualizado‎(s)‎ ]

To ficando profissional em achar a saída das cidades sem auxílio de placas, já que não existem por aqui também. Vai na intuição, até encontrar a carretera, e depois na fé acreditando que aquela estrada é a correta. Rodo alguns kms até ver algum tipo de identificação confirmando que estou no caminho certo. Saindo de Puno pela 3S, rapidamente estamos em Juliaca, uma cidade com ruas apertadas, cheias de buracos e trânsito infernal:

(Juliaca - Puno - Peru)

Atravessei a cidade rodeado de tuc-tucs, motos de todos os tipos, bicicleta, galinha, lhama e o que pudesse aparecer na minha frente, só faltou aquele macaco gigante vindo correndo na minha direção tentando atrapalhar pois parecia que estava numa gincana de programa de auditório.

Depois de algumas outras cidades menores, finalmente entramos na região de Cusco e voltamos ao cenário do altiplano, muitas retas e curvas contornando os enormes paredões dos Andes:

(Carretera 3S - Cusco - Peru)

Aqui no Peru o griffo, assim como na Bolívia, também só vende gasolina, no máximo um banheiro simples:

(Cusco - Peru)

Esse era o melhor posto da estrada, onde se vê várias casas de família vendendo gasolina, muitas vezes estocada em vasilhames. Apesar de ser uma experiência inesquecível, preferi não ver minha moto abastecida com um penico. Estou judiando dela, mas não é pra tanto. Coincidência ou não, aqui a gasolina é vendida na quantidade de "galões" e não em litros.

O cenário por aqui é incrível, e a distração é inevitável. Certa hora me dei conta que a moto estava rebolando demais, simplesmente não tinha me dado conta que o asfalto estava com muita areia. Provavelmente uma tempestade passou por aqui recentemente:

(3S - Cusco - Peru)

Depois de alguns sustos e curvas perdidas, fui diminuindo gradativamente a velocidade. Caminhões na contramão levantavam aquela nuvem de poeira. A moto estava bem instável, sinceramente achei que ia comprar um terreno por aqui, mas a sorte estava do meu lado.

Tanto é que a chuva começou a ameaçar. achei que pela primeira vez iria pegar uma água, mas foi só pista molhada. A tempestade tinha acabado de passar.

Mais um dia inteiro de estrada, cheguei em Cuzco sem tempo para fazer nada, arrumei um hostel e uma garagem ao lado. Essa foi a melhor que consegui:

(Cuzco - Cusco - Peru)

Não tinha lugar coberto e pretendo ficar aqui 3 dias. Se chover, espero que lave a moto, tá precisando. Como estou precisamente no umbigo do mundo, capital do império Inca: Qosqo, coloquei um toco de madeira debaixo do descanso, não quero voltar e encontrá-la enterrada, ou melhor, engolida pela Pachamama. 

É muita doideira! E tem cara mais doido ainda que vem pra cá de moto!

Dia 16: Lago Titicaca

postado em 9 de dez de 2013 03:18 por Road Garage   [ 19 de dez de 2013 07:02 atualizado‎(s)‎ ]

Hoje é dia de curtir o Titicaca. A van da empresa de turismo contratada passou cedo, e as 7h já estavamos embarcando. Depois de uma explicação detalhada a respeito da origem do nome e a importância do lago, estávamos navegando pelo lago mais alto do mundo, 3800m de altitude:

(Lago Titicaca - Proximidades de Puno - Peru)

Primeira parada para conhecer as ilhas flutuantes de Uros, povo que habita o lago desde os tempos mais remotos e que adora a turistada:

(Isla de Uros - Lago Titicaca - Peru)

Uma explicação rápida de como as ilhas são construidas, sua durabilidade e o costume do povo:

(Isla de Uros - Lago Titicaca - Peru)

A milênios se mudaram da terra firme para as ilhas, fugindo de um outro povo que estava exterminando-os. Todos tem os olhos puxados, e são bem morenos. Meio de transporte:

(Ilha de Uros  - Lago Titicaca - Peru)

Realmente bem diferente de tudo que conhecemos até agora. A água aqui não é tão limpa, como na ilha seguinte, Isla de Taquile:

(Isla de Taquile - Lago Titicaca - Peru)

Essa ilha atinge uma altitude considerável, mais de 4000m, proporcionando um visual incrível do Titicaca. Belo cenário para o almoço:

(Ilha de Taquile - Lago Titicaca - Peru)

O almoço aqui no Peru é bem servido: entrada, sopa, comida e sobremesa. Praticamente todos voltaram dormindo com o balanço do barco. Bom para descansar para os dias seguintes na moto, até Machu Picchu. Retornamos a Puno no final do dia:

(Lago Titicaca - Proximidades de Puno - Peru)

A tempo de chegar curtir a cidade. Na verdade ainda não sabia onde ficava o centro. Nem onde estava hospedado. Numa viagem desse tipo fica difícil agendar hotel com antecedência, mesmo nas cidades que ficamos mais dias. Aqui em Puno parei no primeiro hostel que apareceu, no que achei que seria o centro. Ledo engano, caminhei mais de 10 quadras até chegar na Plaza de Armas e na rua dos turistas. A volta foi na base do Tuc Tuc malvadão. Perguntei: "Motor de moto né!? Qual a cilindrada?" Resposta: "4 cilindros." rs Beleza, só se for na imaginação dele:

(Puno - Peru)

Amanhã rumo a Cusco, o umbigo do mundo!

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